é de letra em letra
de sílaba em sílaba
uma palavra de cada vez
com seu devido espaço
o caminho é cheio de obstáculos
tropeçamos em vírgulas
atravessamos pontos
caímos literalmente.
na incerteza de uma interrogação
refletimos sobre o que não sabemos
atravessamos mais pontos e mais vírgulas
afim de responder as interrogações
e nessa travessia
muitas surpresas
explodem em exclamações.
a bagagem acumula em aspas,
parênteses, colchetes,
colchetes não! não se usa mais
colchetes é do tempo da matemática
da quinta série, quando os exercícios
eram expressões.
expressões não tem expressões
talvez só as dos alunos
ao se depararem com elas
se as expressões são as reações
as equações são o psiquê cognitivo
as questões de variações complexas,
comportamentais de primeiro ou segundo grau
ou seja, problemas, ou não.
com perdão dos trocadilhos matemáticos
mas esse poema não é sobre 1+1=2
talvez sobre a divisão, ou a fração do tempo
de um fragmento que nos conduz a um corte de verdade absoluta
ou uma raiz quadrada proveniente
de uma potência de um super momento
no fim das contas,
somos a multiplicação fatorial das nossas vivências
a composição é complexa cheia de adições, subtrações,
divisões, multiplicações, interseções, uniões....
os três pontinhos...
são na verdade um transporte de momentos vividos
separados por vagões
de um trem que aumenta
de tamanho enquanto se movimenta
entre esses três pontinhos
nos conhecemos
tenho esses momentos
guardados dentro de mim
e protegidos com parênteses,
colchetes e sete chaves.
o vento bate e vira
a página do livro
mudando completamente
de assunto
às vezes chegamos assim
no meio de algo
que já estava acontecendo
o famoso pegou o bonde andando
bem naquela mordida
a salsicha escorregou
mergulhando com tudo
na camiseta branca
eu tinha acabado de chegar
onde é o banheiro?
pia, sabonete
e um borrão de água cresce
no meio da blusa
às vezes limpar parece sujar mais
três pontinhos depois
elipse necessária
para a mancha sumir
taça de vinho branco na mão
conversa no piloto automático
sorriso engatado
viver é lidar com o processo
é escrever uma linha por dia
é caminhar entre sentimentos
e saber que tudo passa
afinal, o que foi visto
nunca será igual
o cotidiano nos engana direitinho
quando se disfarça de igual
justamente nesse cotidiano
pilotamos trabalhos, filhos
ralo entupido do chuveiro
unhas, preciso cortá-las.
como estão as unhas da juju?
acabou o sabonete, pasta de dentes, pilhas!
o controle remoto não funciona
qual é mesmo o AAA da pilha?
no final do dia, aperto a descarga
e elimino tudo de pior de mim
do mc donalds do domingo
até as crenças mais absurdas
que um homem solitário
é capaz de produzir.
um banho é um renascimento
água quente despejada sobre minha cabeça
numa imersão de relaxamento
pingos, gostas, passeiam
pelo meu corpo
e revitalizam
meu ser novo em folha
ainda enrolado na toalha
me jogo na cama
adormeço
não se engane
amanhã tudo vai
ser diferente.